segunda-feira, 5 de abril de 2021

A DIGITALIZAÇÃO DO PRESENCIAL: OBJEÇÃO À REPLICAÇÃO

Sem delongas, manifesto, a priori, e em jeito inaugurador deste conciso artigo de opinião, uma cabal objeção à replicação no digital do presencial. O tempo presencial é diametralmente oposto ao tempo digital, a dimensão de atenção intelectual no espaço presencial e no digital não se situa em patamares de similitude, o que cria um feixe de vicissitudes e óbices no Enino à Distância, reclamando por bom senso na gestão do tempo, das estratégias, dos métodos e dos recursos pedagógicos. A digitalização do presencial ou o presencial digitalizado é um terrível equívoco, ainda que denominemos os alunos por nativos e/ou residentes digitais, porquanto não alcança a dinâmica psicossomática do humano, a dimensão motivacional, a concentração cognitiva e, por inerência, condiciona toda a dinâmica do binómio ensinar-aprender. Mais se acrescenta que para muitos alunos o domínio digital está amiúde associado à dimensão lúdica do jogo, e não a ferramentas digitais para uso escolar, mormente estudar, aprender, realizar tarefas e desenvolver trabalhos. Imagine-se uma criança sentada por tempo "infindável", focada diante de um ecrã horas a fio, a escutar, a falar e a interagir com discentes e docentes, numa pretensa dinâmica de processo ensino-aprendizagem. Com esta abordagem de cariz mais didático e pedagógico, não queremos olvidar as crianças que não detêm as condições logísticas adequadas, ficando no ancoradas no cais, acentuando ainda mais as desigualdades sociais. Com factualidade, sem quaisquer reservas, o hiato entre os alunos é acentuado por razões de índole socioeconómica. É ponto assente que incumbe à escola assumir-se como elevador social, como mitigadora das diferenças, como promotora da igualdade de acesso a um ensino de qualidade para todos os alunos. O vocábulo todos/todas não deve, em momento algum, ser alvo de descarte. Estamos juntos no mesmo desígnio: mitigar as diferenças e ajudar a garantir condições de igualdade para todos. A perpetuação da desigualdade entre alunos de diferentes condições é o colapso do Sistema Educativo de um país que se traduz numa sociedade mais empobrecida, numa civilização amputada em evolução social, desenvolvimento económico, investigação científica, produção artística e cidadania ativa. Toda a sociedade perde quando os alunos advindos de condições socioeconómicas adversas não são ajudados a singrar, a alcançar sucesso educativo, triunfando a nível pessoal e laboral. Posto isto, creio firmemente que esta replicação (horas a fio de aulas online) do presencial no Zoom, Webex, Meet, Skype, ou outra plataforma digital qualquer, suscitará muita coisa na efervescência que é a mente criativa e imaginativa de uma criança, todavia, duvido que o escopo seja o bem-estar psicossomático, a concentração cognitiva, a interpretação, a interrogação e, por consequência, a não efetivação de uma aprendizagem significativa, pelo que fica colocado em causa o interesse superior de crianças e jovens – o futuro da civilização. A desigualdade social não é mitigada, sendo, lamentavelmente, ampliada pela falta de condições logísticas (computadores, velocidade de internet, literacia informática) e, essencialmente, por falta de apoio familiar a preceito. Comummente escutamos a necessidade de uma Transição Digital, vindo a propósito o ensino à distância que recorre a dispositivos digitais para mediação do processo ensino-aprendizagem. Contudo, o mundo docente, discente e decente que se preocupa efetivamente com o ato educativo saberá, portanto, que não é suficiência bastante a mera aquisição de computadores, dispositivos tecnológicos e routers Wi-fi com acesso à internet, é crucial evoluir para uma Transformação Pedagógica, ministrando formação a docentes e discentes, explorando o potencial que emana do mundo informático, tecnológico e digital. Será determinante investir na inteligência artificial e na realidade aumentada dos jogos de computador para recriarem salas de aula virtuais, criando experiências de imersão que motivam os alunos, tal e qual sucede com a gamificação. As perspetivas em torno da Educação do século XXI são liminares: mudam os alunos, muda a sociedade, muda a escola, muda a dialética de ensinar e aprender numa cultura de velocidade/vertiginosa, onde o obsoleto é hoje, é amanhã, é aqui e agora. A inovação pedagógica é um desafio emergente e premente perante os alunos nativos/residentes digitais. É nuclear implementar uma aposta sólida na formação docente para maximizar o potencial da tecnologia educativa ao serviço do ensino-aprendizagem. Há todo um mundo novo a explorar e todo um mundo velho a burilar. Ainda continuo crente que o binómio tradição e inovação cria sábias pontes de equilíbrio entre as tensões do passado, do presente e do futuro, pelo que considerando a memória projetamos o admirável mundo novo dos ambientes digitais/tecnológicos. A Educação é um dos investimentos cimeiros de uma sociedade, abrindo para um oceano de oportunidades para crescimento humanista, social, económico, científico e tecnológico. Não obstante, e sem querer intentar em maniqueísmos entre meios digitais e meios tradicionais de ensino-aprendizagem, é certo que o mundo tecnológico é, indiscutivelmente, complementar do ensino presencial, fomentando aprendizagens significativas de saber, de saber fazer e de saber ser/estar em modalidade de trabalho colaborativo e individual do aluno sob supervisão pedagógica do docente, ora no uso do caderno/caneta/lápis, ora no uso da tecnologia/computador/teclado/rato. As mediações digitais e não digitais não são excludentes, mas vasos comunicantes da mesma realidade educativa ao serviço do processo ensino-aprendizagem. À laia de conclusão, e recorrendo a uma analogia do mundo piscatório, precisamos de investimento em canas e, sobretudo, que nos ensinem a pescar, sendo o anzol a formação e o peixe o conhecimento. Nelson Carneiro (Professor)

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