terça-feira, 17 de novembro de 2009

Deus

DEUS

Não tenho palavras.

Gastei-as a negar-te…

(Só a negar-te pude combater

O temor de te ver em toda a parte.)

Fosse qual fosse o chão da caminhada,

Era certa a meu lado

A divina presença impertinente

Do teu vulto calado

E paciente…

E lutei como luta um solitário

Quando alguém lhe perturba a solidão.

Fechado num ouriço de recusas,

Soltei a voz, arma que tu não usas,

Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó

O joio amargo do que te dizia…

Agora somos dois obstinados,

Mudos e malogrados, que apenas vão a par na teimosia.

MIGUEL TORGA

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